Saturday, February 28, 2015

Como a Evolução explica o seu cansaço




Tenho um amigo que acorda todo dia às 6h, sai para correr cinco quilômetros, toma um café da manhã superequilibrado e saudável e, quando chega ao trabalho, está se sentindo relaxado, revigorado e pronto para encarar o batente.
Não suporto esse meu amigo. Simplesmente porque sou do tipo que acha que o botão "soneca" do despertador deveria ser um direito humano básico.
Não importa se me deito cedo: de manhã, nunca consigo me livrar da sensação de ter uma nuvem pairando em volta da minha cabeça.
Mas ficar cansado não é completamente culpa nossa, já que o estilo de vida que levamos nem sempre colabora para o delicado equilíbrio do nosso corpo.

'Despertador natural'

Controlado pelo ciclo circadiano, o nível de melatonina age como despertador natural
O relógio biológico que controla o sono, o chamado ciclo circadiano, é regido pela liberação de hormônios vindos da glândula pineal, localizada no centro do cérebro, entre os dois hemisférios.
Essa glândula é responsável pela produção da melatonina, o hormônio indutor do sono. A liberação desse hormônio começa por volta das 21h, trazendo uma sensação de relaxamento e de vontade de dormir.
O pico da liberação de melatonina ocorre por volta das 3h e o hormônio permanece alto no organismo por cerca de 12 horas. Sua presença começa a decair de manhã e é praticamente indetectável no meio do dia.
Esse ciclo natural é também o que regula o nível de alerta, na direção oposta: precisamos dele alto durante o dia e baixo durante a noite.
Os níveis de melatonina agem como um "despertador natural", o que explica a sensação estranha no organismo quando uma pessoa viaja por diferentes fusos horários, o chamado jet-lag.
Se na hora de dormir o nível de melatonina estiver baixo, será praticamente impossível pegar no sono, independentemente do quanto você está cansado.
O ciclo circadiano explica ainda por que é muito difícil conseguir dormir por oito horas depois de uma noite em claro. O nível de melatonina pode até estar alto quando você finalmente for para a cama, por volta das 6h. Mas o relógio biológico acaba confundindo seu organismo no meio do dia e o sono deixa de ser repousante.
Pelo mesmo motivo, é comum sentir uma segunda onda de energia quando se passa mais de 24 horas acordado.

Culpa da tecnologia?

Luz emitida por aparelhos eletrônicos pode interferir na indução ao sono
Voltando ao meu irritante amigo, o que explica seu comportamento é o fato de o ciclo circadiano ser diferente em cada indivíduo. Em alguns, os níveis de melatonina aumentam e caem mais cedo, enquanto em outras pessoas, o ciclo é mais "atrasado".
Cientistas argumentam que existem motivos evolutivos para isso. Um deles é que, assim, um agrupamento humano teria sempre alguém em estado de vigília para proteger o resto.
Pesquisadores também já demonstraram que o ciclo circadiano ocorre bem mais tarde entre os adolescentes que entre adultos. Por isso, muitos jovens "enrolam" para ir para a cama e têm uma enorme dificuldade de se levantar quando o despertador toca pela manhã. É que o ciclo circadiano desses adolescentes está fora de sincronismo com seu ciclo de sono.
Mas existe um outro problema que pode interferir em nosso relógio biológico: a tecnologia à nossa volta.
O ciclo circadiano e os níveis de melatonina são regulados pela quantidade de luz a que estamos expostos, mantendo-nos alertas durante o dia e mais relaxados e sonolentos durante a noite.
Mas hoje em dia, passamos nossos dias em espaços fechados e com pouca luz, enquanto à noite ficamos horas diante das telas iluminadas de televisões, computadores, tablets e smartphones.
Para piorar, a luz emitida por todos esses aparelhos, a chamada luz azul, tem um comprimento de onda curto. É exatamente o tipo de luz que faz com que nossos cérebros entendam que estamos no meio do dia e precisamos do maior nível de alerta possível, suprimindo o nível de melatonina.
Como ilustram os exemplos dos adolescentes e dos jet-laggers, se os níveis de melatonina não estiverem corretos, será impossível dormir.

Driblando as luzes

Mas existem alguns recursos para lidar com essa falta de sincronismo. Um deles é um aplicativo que muda a cor da tela do celular dependendo da hora, tornando-a mais escura à noite e mais clara de dia.
Ter um par de óculos com lentes cor de âmbar (entre o laranja e o amarelo) e usá-los à noite também pode ajudar a evitar que a produção natural de melatonina seja afetada.
Mas a melhor maneira de regular o sono e ter uma noite mais repousante é, segundo os cientistas, se desligar de qualquer tipo de tela cerca de uma hora antes de se deitar.

Por que WhatsApp está sob ameaça de bloqueio em diversos países?


Foto: BBC


Aplicativo já sofreu ameaças em diversos países, sob justificativa de ser usado por criminosos
Não é apenas no Brasil, onde um juiz do Piauí ordenou o bloqueio do aplicativo, que o WhatsApp correu risco de sair do ar.
No Reino Unido, na Arábia Saudita, no Irã e em outros países, o aplicativo também sofreu ameaças de bloqueio e, em alguns deles, chegou a ser suspenso.
A discussão ocorre porque é mais difícil monitorar mensagens enviadas pelo aplicativo do que ligações telefônicas ou e-mails, por exemplo – o que, segundo alguns países, pode ameaçar tanto a segurança pública quanto a segurança nacional.
O bloqueio do WhatsApp, no entanto, é visto por muitos como uma ameaça à liberdade de expressão.
No Brasil, o juiz Luís de Moura Correa determinou que o WhatsApp fosse bloqueado para forçar a empresa a colaborar com a Justiça em uma investigação sobre pedofilia.
Na noite desta quinta-feira, a decisão foi derrubada pelo desembargador Raimundo Nonato da Costa Alencar. O magistrado entendeu que não era razoável bloquear um "serviço que afeta milhões de pessoas".
No Reino Unido, o primeiro-ministro David Cameron também critica a falta de colaboração da empresa em investigações – neste caso, sobre terrorismo.
Em um discurso em janeiro, o britânico disse que tentaria proibir serviços de mensagens encriptadas – como as do WhatsApp e do Snapshat – caso o conteúdo não pudesse ser acessado pelos serviços de inteligência britânicos.
A declaração foi feita após os ataques a revista satírica Charlie Hebdo, em Paris, que aumentaram o temor sobre ameaças terroristas. Já existe uma pressão para que empresas como Google e Facebook forneçam mais informações sobre as atividades dos seus usuários, já que há uma forte ação de recrutamento de grupos radicais pela internet.
"Vamos permitir meios de comunicação que são impossíveis de ler? Minha resposta é: não, não devemos fazer isso", disse Cameron.

Terrorismo

Ameaças de terrorismo ou à segurança nacional também serviram de justificativa para o bloqueio do serviço em outros países.
Muitos desses governos, no entanto, foram criticados por restringir a liberdade de expressão.
Na Arábia Saudita, de acordo com agências de notícias, houve uma ameaça de retirar o Whatsapp do ar em 2013 porque o serviço não estaria se adequando às regras de Comissão de Comunicações e Tecnologia da Informação. Na época, o país chegou a tirar do ar o Viber, aplicativo de mensagens e chamadas de voz pela internet, pelo mesmo motivo.
Em Bangladesh, o serviço foi bloqueado em janeiro, também de acordo com agências. O governo afirmou que havia ameaças de terrorismo e que era difícil monitorar comunicações pelo aplicativo.
"Terroristas e elementos criminosos estão usandos essas redes para se comunicar", disse uma autoridade do Paquistão para justificar a suspensão do aplicativo em uma província, segundo a mídia local.
No ano passado, o presidente do Irã, Hassan Rouhani, considerado moderado, precisou se empenhar pessoalmente para liberar o aplicativo.
A linha dura iraniana pediu a censura, segundo a emissora de TV americana Fox News, devido à compra do app pelo Facebook – cujo dono, Mark Zuckerberg, seria uma "americano sionista", segundo o comitê do país responsável pela internet.
Na Síria, que passa por uma guerra há mais de três anos, o aplicativo – usado para marcar protestos durante a Primavera Árabe – foi suspenso em 2012.
"Um golpe na liberdade de expressão e nas comunicações em todo lugar. Um dia triste para a liberdade", publicou o WhatsApp em seu Twitter à época.

Ciência desvenda mistério do vestido que 'muda de cor'

Credito: swikedtumblr

A imagem original do vestido: que cores você vê?
Como nossos olhos podem estar errados? Quando vemos algo claramente, falamos sobre o que vimos com certeza absoluta. Mas às vezes cometemos erros.
Azul e preto ou branco e dourado? É o frisson que vem causando a foto do vestido acima. A discussão virou um dos temas mais compartilhados nas redes sociais, em especial no Twitter, onde alcançou status de trending topic, ou assunto entre os mais comentados, no Brasil e no mundo.
"Qual é a cor desse vestido? Vejo branco e dourado. Kanye vê preto e azul, quem é o daltônico?", escreveu Kim Kardashian na rede.
Também no microblog, a ganhadora do Oscar Julianne Moore disse que via branco e dourado, mas Taylor Swift e Justin Bieber viram azul e preto.

O que diz a tecnologia

Se você enxerga o vestido branco e dourado, está simplesmente equivocado.
Pedimos à editora de fotografia do Serviço Mundial da BBC, Emma Lynch, que nos ajudasse a determinar objetivamente a cor do vestido usando um software de edição de fotos.
Ela disse que, após análise, todos os tons da cor do vestido são azuis, e não brancos. Ao aumentar a saturação - tornando as cores existentes mais fortes, mas sem acrescentar novas cores - o vestido aparece azul para todos.
Credito: Twitter
Análise de computador confirma que o vestido é azul
Estes resultados são confirmados pelo uso da ferramenta de conta-gotas do software, que captura amostras de áreas específicas do tecido. Este software identifica o código de cor do computador de qualquer pixel na tela. E nesse caso também gera resultados em tons de azul.

Como tudo começou

As conclusões são confirmadas pela responsável por distribuir a imagem do vestido nas redes sociais.
Caitlin McNeill, uma escocesa de 21 anos, faz parte de uma banda de folk. Na semana passada, o grupo tocou em um casamento onde a mãe da noiva estava usando o vestido.
Caitlin contou ao site BuzzFeed News que as discordâncias sobre a cor do vestido começaram pouco antes da festa, quando a mãe da noiva compartilhou com o casal uma foto da roupa que planejava usar.
A noiva e o noivo não conseguiram chegar a um acordo sobre se o vestido na foto era azul e preto ou branco e dourado. Então postaram a imagem no Facebook. McNeill, depois, compartilhou a foto em seu Tumblr.
A história cresceu nas redes sociais e não parou mais.
McNeill disse que o vestido azul e preto é da marca Roman Originals e, embora houvesse outras opções de cores disponíveis, nenhum deles era branco e dourado.
Adobe
Manipulação em computador intensifica cores e deixa claro que o vestido é azul

Por que vemos cores diferentes

De acordo com o site de tecnologia Wired.com, a chave para decifrar o enigma do vestido está na forma como os olhos e o cérebro evoluíram para ver cores na luz solar.
Como os seres humanos evoluíram para ver a luz do dia, seus cérebros começaram a levar em conta o fato de que a luz muda de cor. Os objetos têm um certo tom vermelho rosado de madrugada, mais azul-branco ao meio-dia, e voltam a ser mais avermelhadas no pôr do sol.
O cérebro tenta descontar o efeito da luz do sol (ou outra fonte de luz) para chegar a uma cor "verdadeira".
Por isso, algumas pessoas veem azul no vestido mas seus cérebros ignoram isso, atribuindo a cor azulada à fonte de luz, em vez de ao próprio vestido. Elas veem branco e dourado.
Os cérebros dos outros atribuem o azul que eles veem ao próprio vestido.
Este fenômeno existe há milhares de anos, mas há algo especial nesta foto do vestido que tornou as diferenças na forma como vemos a cor mais clara do que nunca.

De olho em arquibancadas, empresa cria TV descartável

Credito: Viuing
Imagem mostra como seria TV descartável
Se um espectador quer ver um jogo de futebol ou um corrida de Fórmula 1 em casa, ele provavelmente quer assistir em uma televisão enorme, que permita ver todos os detalhes de seu esporte preferido.
Mas e se o público que assiste o evento ao vivo pudesse ter uma TV de bolso e também não perdesse nenhum lance?
Uma startup espanhola quer unir a emoção de ver um espetáculo ao vivo com a precisão das transmissões pela TV. Com isso em mente, a Viuing projetou uma TV de papelão para ser vendida pelo público que assiste a grandes eventos esportivos.
Seria como o radinho de pilha que torcedores costumam levar para estádios de futebol, mas com imagens.
O dispositivo será um pouco maior do que uma caixa de CD, descartável após a primeira utilização e vai custar cerca de 15 euros (cerca de R$ 50). A empresa planeja começar a venda no próximo verão do hemisfério norte.
"Será a primeira TV portátil que transmite em tempo real tudo que está acontecendo", disse à BBC Marc García, CEO da empresa.
"Os espectadores vão adquirir o dispositivo ao entrar no show e não só poderão acompanhar a transmissão mas vamos fornecer todas os tipos de estatísticas relacionadas com o que eles estão assistindo."

Por que não um telefone?

Mas por que usar o Viuing e não um tablet ou smartphone?
García acredita que esses dispositivos não podem oferecer os mesmos benefícios.
Credito: AFP/Getty
Ao final dos jogos, torcedores poderiam ficar com a TV como lembrança ou devolvê-la para reciclagem
Por um lado, "estes produtos podem ser danificados ao ar livre e ficam sem bateria muito rápido", diz.
"Um dispositivo como esses ligado a um streaming (um tipo de transmissão de dados) dura cerca de meia hora."
Garcia explica que sua tecnologia permitirá uma autonomia de seis horas, "o suficiente para qualquer evento dessa natureza."
Ele também alerta que em grandes aglomerações o sinal muitas vez cai.
A ideia da Viuing é ter o seu próprio sinal com uma série de antenas nos locais de competição.

E o que acontece depois do evento?

Quando o evento esportivo termina, o público poderá ficar com a TV descartável como lembrança (ele terá uma serigrafia comemorativa) ou pode devolvê-lo em um container.
Segundo a empresa, praticamente todos os seus componentes (de papelão e plástico) serão reciclados por sua equipe, com exceção das baterias, que "como em qualquer dispositivo, não são recicláveis por si mesmas e necessitam de tratamento especial."
O que a empresa vai fazer é contratar empresas especializadas em reciclagem, separando seus elementos para reutilizar tudo o que pode ser aproveitado.

Rio, 450 anos: Cinco grandes desafios para o futuro


Foto: Thinkstock


Ao completar 450 anos neste domingo, o Rio de Janeiro registra avanços e enfrenta desafios que se arrastam há décadas.
A ex-capital, considerada o cartão-postal do Brasil para o mundo, tem um mercado turístico que segue em crescimento, mas ainda enfrenta problemas de saneamento básico, violência, mobilidade urbana e infraestrutura turística.
A pouco mais de 500 dias da Olimpíada, o Rio é um grande canteiro de obras, com expansão do metrô, construção de BRTs (corredores de ônibus), VLTs (bondes de superfície), túneis e duplicação de estradas, além das instalações olímpicas.
A BBC Brasil selecionou cinco áreas e convidou especialistas para comentar os problemas atuais e desafios futuros da cidade.
Veja os principais trechos das entrevistas:

1) IMPACTOS E LEGADO DOS GRANDES EVENTOS

O geógrafo americano Christopher Gaffney viveu os últimos seis anos no Rio de Janeiro analisando os impactos dos grandes eventos sobre a cidade. Suas pesquisas e análises foram destacadas na mídia brasileira e internacional e seu trabalho de pós-doutorado na Universidade de Zurique tem como tema o legado e os problemas da Copa do Mundo e da Olimpíada para os cariocas.
BBC Brasil – Quais são os principais impactos e o legado que a Copa e as Olimpíadas deixarão para o Rio de Janeiro?
Christopher Gaffney – Na minha visão o legado principal é uma cidade mais cara, mais excludente, mais fragmentada e mais privatizada. É a consolidação da ordem de poder na cidade. Há obras de mobilidade, mas faltou entender o transporte associado à moradia e ao trabalho. A Zona Sul e o Centro ainda concentram 60% de todos os empregos no Rio, e poderia ter havido mais investimentos em moradias acessíveis na região central ou em trens para o subúrbio. Há uma ciclovia que ligará o Leblon à Barra, mas ao longo dos BRTs que levam à Zona Norte, não. Estamos pensando em projetos de turismo ou mobilidade urbana?
Teríamos tido um legado maior caso a Olimpíada tivesse sido concentrada na Ilha do Fundão, onde está a UFRJ, como previa o primeiro projeto. Teria havido alterações mais profundas, com impactos positivos para os mais pobres. Isso teria significado mais transportes na Baía de Guanabara, um modelo mais inclusivo de integração com os bairros do entorno e com a Zona Norte, como o Complexo do Alemão, Caju, Complexo da Maré, até mesmo a Baixada Fluminense, além de uma ligação de metrô com o centro da cidade. Focando na Barra, estamos reforçando a lógica vigente, a divisão entre periferia e bairros nobres.
BBC Brasil - O Rio tende a ganhar ou perder com os grandes eventos?
Gaffney – Eu diria que, para a maioria da população, a tendência é perder mais do que ganhar, por diversas razões. O carioca mais uma vez mostrou-se capaz de organizar grandes festas, mas a que preço?
Especialista acha que o Rio está mais 'fragmentado e privatizado'
A normalidade foi suspensa, com os feriados em dias de jogos, e reforçou-se a ideia de uma sociedade militarizada, que não entende as demandas dos mais pobres. Houve diversas polêmicas, remoções, dentre outros problemas. Os grandes eventos têm um lado festivo, que leva ao orgulho e ao patriotismo, mas têm também um lado perverso.
Nessa lógica perversa inclui-se a consolidação de medidas de exceção na segurança pública, por exemplo. E isso também aconteceu em Vancouver e Londres. Os grandes eventos não alteram de forma sustentável a lógica da segurança pública, com transformações de longo prazo. Ao contrário, estimulam a criação de soluções imediatistas e de exceção, cuja tendência é se tornarem permanentes, inclusive na legislação.
Além disso, a percepção de ganhar ou perder está atrelada à posição geográfica e à classe social de cada um.
BBC Brasil – O que o Rio pode tirar de lição para o futuro com a Copa e a Olimpíada?
Gaffney – Em grandes eventos, os benefícios são pagos por todos e distribuídos a poucos. Por isso, seria imprescindível atentar mais para a importância de haver consultas públicas. A população deveria ter uma influência muito maior sobre os planos olímpicos. Também é importante rastrear e monitorar o uso do dinheiro público, o que é muito difícil no Brasil. O cidadão deveria ser mais ativo, participar mais desses processos, porque não adianta reclamar só depois que já está tudo finalizado.
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2) SEGURANÇA PÚBLICA

Domínio de grupos criminosos sobre alguns territórios está entre os principais problemas de segurança pública
Pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da UERJ, o sociólogo espanhol Ignacio Cano vive no Rio há mais de 15 anos e vem acompanhando o cenário de segurança pública na cidade, com diversos livros e artigos publicados, entre eles estudos sobre as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).
BBC Brasil – Quais são os principais problemas atuais em questão de segurança pública no Rio de Janeiro?
Ignacio Cano – Os maiores problemas no momento são o elevado número de homicídios, os roubos também muito elevados e o domínio de grupos criminosos sobre alguns territórios.
BBC Brasil – Qual é o momento atual das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e como o projeto de pacificação pode se desenvolver no futuro?
Cano – As UPPs enfrentaram uma grave crise e agora passam por reavaliação, mas a situação ainda é muito delicada. O programa de pacificação encontra-se num momento difícil, e o cenário não é muito favorável. Vamos ter que ver como evolui até 2016 e, se a trajetória até lá for negativa, a situação pós-Olimpíada pode ser complicada, com a já esperada diminuição do foco de atenção a essas iniciativas e, por consequência, dos recursos disponíveis.
No Complexo da Maré o Estado terá que assumir, e ainda não sabemos o que irá acontecer. Trata-se de um teste, uma grande oportunidade. Por um lado pode-se mostrar algo diferente, integrando mais a população. Por outro, pode-se reproduzir o desastre ocorrido no Complexo do Alemão, com tiroteios constantes, numa situação em que as pessoas praticamente não se beneficiaram da pacificação. Há o risco de a Maré se tornar um novo Alemão.
BBC Brasil – Quais devem ser os impactos dos grandes eventos sobre a segurança pública no Rio? E quais devem ser as preocupações para o futuro?
Cano – Os grandes eventos não alteraram fundamentalmente o panorama de segurança pública no Rio. O que mais trouxe alterações foi a UPP, no sentido de mudar as favelas da Zona Sul, mas nem Copa nem Olimpíadas vão alterar crucialmente as características da cidade. Não existe mais essa expectativa.
Quanto ao futuro, as preocupações deveriam ser tentar fazer uma cidade mais integrada e menos segregada, melhorando os índices de homicídios e tornando-se um território só, integrado. Os investimentos deveriam estar focados realmente na redução dos homicídios e na recuperação de territórios.
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3) MOBILIDADE URBANA

A mobilidade urbana é um dos principais temas em debate no Rio
Carioca, o arquiteto e urbanista Pedro Rivera é o diretor do Studio-X Rio, uma rede global da Universidade de Columbia, nos EUA, cujo objetivo é repensar o futuro das cidades, com unidades em Amã, Nova York, Mumbai, Pequim, Tóquio, Istambul e Johannesburgo, além do Rio de Janeiro.
BBC Brasil – No que o Rio ainda está errando em matéria de mobilidade urbana, mais recentemente?
Pedro Rivera – A principal questão em mobilidade urbana hoje em dia é como fazer a pessoa migrar do carro para o transporte público. A demolição do elevado da Perimetral, no centro do Rio, é um bom exemplo disso. Sou totalmente a favor, mas usaram milhões para construir um túnel subterrâneo, quando esse dinheiro deveria ter sido usado para desenvolver mais opções de transporte coletivo. Mais BRTs, mais barcas, mais VLTs. Esse deveria ter sido o recado, a prioridade, e não o carro, mais uma vez. Também precisamos investir mais em ciclovias, na bicicleta como meio de transporte.
Nós destruímos nossas cidades para acomodar o carro, visando o transporte individual como prioridade, abrindo estradas e grande avenidas. Agora o desafio é retomar este espaço para a coletividade.
BBC Brasil – Quais são suas principais sugestões para o futuro do Rio em termos de mobilidade urbana?
Rivera – Uma das questões mais importantes é o estacionamento no centro expandido da cidade. As pessoas acham que têm o direito de estacionar na rua, mas na verdade trata-se de um privilégio. Quando eu estaciono meu carro na rua, estou usando um espaço que é de todos, para o meu benefício individual.
A partir disso, defendo que estacionar na rua seja proibido em todo o centro expandido (incluindo Botafogo, Tijuca, Glória). A cidade precisa ter uma política de estacionamento em via pública. Quantas vagas existem? Qual nossa é a meta? Qual é a política tarifária? É preciso começar a pensar o estacionamento no centro das grandes cidades como forma de reduzir o número de carros.
BBC Brasil – Você ajudou a criar um projeto de ciclovias para o centro da cidade que foi aceito pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB). O que diz esse plano?
Rivera – As ciclovias do Rio são muito lineares. Na orla, na Lagoa, falta capilaridade, ruas do interior dos bairros também precisam ter as ciclovias. Nosso projeto prevê isso, a criação de uma malha cicloviária no centro da cidade. O custo está estimado em R$ 6 milhões, e o documento foi entregue ao prefeito na metade do ano passado. Recebemos o compromisso de que seria executado, e as obras já começaram.
A ideia é que as ciclovias se conectem às estações de metrô, barcas, à Central, e demais modais. A ciclovia precisa deixar de ser secundária, e tornar-se um investimento de prioridade, visto com importância. São no total 33 quilômetros de malha cicloviária no centro do Rio, que ajudarão a locomoção e a integração com os outros modais.
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4) SANEAMENTO BÁSICO/DESPOLUIÇÃO

Especialista diz que ausência de política pública favorece ocupação desordenada e lançamento de esgoto na Baía de Guanabara
Um dos mais respeitados estudiosos da Baía de Guanabara e do sistema de lagoas do Rio de Janeiro, o biólogo Mario Moscatelli acompanha há anos o panorama de saneamento básico e poluição na capital fluminense e mantém análises constantes do setor.
BBC Brasil – Quais são os maiores problemas do Rio de Janeiro em termos de saneamento básico e poluição atualmente?
Mario Moscatelli – Neste momento os principais problemas são a falta de políticas públicas para a habitação que sejam mais permanentes e constantes. Isso favorece uma ocupação desordenada do terreno da cidade, gerando o esgoto irregular, que acaba indo para as praias, lagoas, e para a Baía de Guanabara. E onde existe a ocupação ordenada, como na Barra, por exemplo, o poder público às vezes demora em instalar o saneamento básico. Do ponto de vista ambiental, rios, Baía de Guabanara e sistema de lagoas estão poluídos e pagam o preço de toda esta situação.
O Rio é uma cidade do século 21 com saneamento básico do século 18. E não são só as favelas que despejam esgoto no ambiente não. Na região metropolitana não há quase nenhum rio vivo, viraram todos valões de esgoto. Há despejo de esgoto no costão de São Conrado e na enseada de Botafogo, e Copacabana tem problemas quando chove. Flamengo tem influências da Marina da Glória e do rio Carioca, Ipanema e Leblon recebem esgoto do Jardim de Allah e o Leblon especificamente do canal da rua Visconde de Albuquerque. Na Barra, há problemas do Quebra Mar ao Pepê e ainda a contaminação pelas lagoas. Ou seja, todos bairros de classe média. São rompimentos de canos, conexões clandestinas e falta de saneamento mesmo.
BBC Brasil – Do que depende o futuro do saneamento básico no Rio?
Moscatelli – De forma geral as melhorias dependem de políticas permanentes e eficientes de habitação, controle da ocupação urbana em áreas ambientalmente sensíveis, programas de saneamento básico eficientes e a recuperação ambiental do que foi destruído. Ao longo das últimas décadas os recursos nunca faltaram e também não faltarão no futuro, o que falta para tudo isso se tornar realidade é vontade política.
Programas sérios de expansão do saneamento básico surtiriam efeito a longo prazo. São políticas de Estado, de 15 a 20 anos de duração. Mas o problema é que temos uma classe política desconectada da realidade e uma sociedade que quase não cobra nada.
BBC Brasil – Um dos grandes temas no momento é a despoluição da Baía de Guanabara antes da Olimpíada. Como você vê as ações na área?
Moscatelli – As Olimpíadas foram um motivo de esperança no que diz respeito a saneamento básico e despoluição da baía e das lagoas do Rio. Eu fui um dos que acreditou nisso. Mas agora, a pouco mais de 500 dias dos Jogos, eu já vejo que é um setor onde dificilmente haverá avanços, infelizmente.
Sobre o compromisso dos organizadores de limpar 80% da Baía de Guanabara, a solução a curto prazo teria sido a instalação de mais UTRs (Unidades de Tratamento de Rio), blindando, impedindo que estes rios levem esgoto e lixo para dentro da baía, e à medida em que a rede de saneamento básico fosse sendo instalada, num período de 15 a 20 anos, elas seriam desativadas. Mas agora, com tão pouco tempo, provavelmente instalarão ecobarreiras, que são como peneiras, nestes rios, para um efeito mais imediato. Quanto às lagoas da Barra, há dinheiro, projetos e empresas licitadas, mas há entraves agora por questionamentos às obras.
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5) TURISMO

Professor da FGV sugere mais sinalização para turistas no Rio
Cesar Cunha Campos é diretor da FGV Projetos, unidade de extensão e pesquisa da Fundação Getúlio Vargas que, dentre outras coisas, produz estatísticas e estudos para o Ministério do Turismo.
BBC Brasil – Nas pesquisas desenvolvidas pela FGV, quais são as principais queixas e elogios dos turistas ao Rio de Janeiro?
Cesar Cunha Campos – Ao entrevistar os turistas, percebemos que as maiores reclamações são quanto à limpeza, violência e o idioma, já que quase ninguém fala inglês ou espanhol. Apesar de ter havido avanços em segurança, os assaltos e a violência ainda assustam muito, sobretudo quando acontece algo com estrangeiros, como o turista que foi morto no Carnaval. Quanto aos elogios, os principais são as praias, o Carnaval e o Cristo Redentor como o grande símbolo do Rio. O Cristo e a praia de Copacabana ainda são inigualáveis no imaginário do turista estrangeiro.
BBC Brasil – No que o Rio poderia avançar nos próximos anos como destino turístico internacional?
Cunha – Precisamos investir mais em sinalização, em placas que orientem os turistas no trânsito e dentro de aeroportos, por exemplo, em português, inglês e espanhol, no mínimo, além de treinar mais pessoas nestes idiomas. Falta explicar ao turista como fazer as coisas. Ônibus, metrô, bilhetes, máquinas, como comprar ingressos. Tudo isso precisa ser modernizado.
Também falta estacionamento, vagas subterrâneas como em grandes cidades, como Paris, por exemplo. Em termos de vagas de hotéis até acho que estamos crescendo num bom ritmo, mas faltam mais hostels para acomodar os turistas mais jovens. Sempre comparamos o Rio com Londres, Paris e Nova York, e temos muito a melhorar. Mas ao lado de lugares como Buenos Aires e Cidade do México estamos muito bem posicionados.
BBC Brasil – Quais devem ser os principais impactos da Olimpíada para o Rio?
Cunha – O impacto de um grande evento como esse para o Rio é maior do que para destinos como Londres e Paris, onde já há uma infraestrutura de turismo mais consolidada e muita credibilidade internacional. Contando que tudo dê certo e que seja um sucesso, teremos aproveitado a oportunidade de mostrar o Rio para todo o mundo, prospectando novos turistas. Neste ponto haverá um grande legado, atraindo mais feiras, eventos e atividades de negócios. Haverá um reflexo adicional para o Amazonas e o Nordeste, destinos para onde o estrangeiro que vem ao Rio costuma ir também.
Haverá um legado em termos de mobilidade urbana. Metrô, VLTs, BRTs, duplicação da estrada da Joatinga, temos uma série de obras em curso que beneficiarão o turismo na cidade. Espero que surjam mais hostels, já que o perfil do turista olímpico, de acordo com as nossas pesquisas, e muito mais jovem do que o da Copa do Mundo. Gastam menos, mas ficam mais tempo, têm perfil mais diversificado. Os próprios atletas tornam-se turistas ao fim dos Jogos.

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