Comunidades pacificadas denunciam 'maquiagem' dos problemas
Investimentos sociais e em infraestrutura ditariam sucesso das UPPs, mas moradores não veem mudanças
Se antes a desculpa para o abandono e a falta de investimento nas favelas cariocas era a insegurança e presença de grupos armados, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) implantada pela primeira vez em dezembro de 2008 serviu para romper essa barreira. Junto com a unidade policial, o governo fluminense se comprometeu a investir na parte social e de infraestrutura, como principais bases para o sucesso do projeto de "pacificação". Cinco anos depois, comunidades permanecem quase inalteradas, na opinião dos moradores. "Nada sobrevive só com segurança", chegou a comentar o delegado José Mariano Beltrame em maio de 2011, já preocupado com a demora de investimentos.Para especialistas, não há como negar os benefícios em segurança trazidos pela implantação da UPP. Apesar do aumento da violência em outras cidades brasileiras, moradores de bairros com comunidades pacificadas acreditam que o programa ajudou a reduzir crimes violentos, de acordo com pesquisa do professor de Economia da Puc-Rio, Claudio Ferraz, divulgada no portal Rio Como Vamos. Moradores das comunidades, contudo, mesmo frisando que não são contra a UPP, se queixam de um aumento da sensação de insegurança, com maior incidência de estupros e assaltos. Falta ainda, acreditam, o mais importante: atendimento efetivo a necessidades como urbanização, cidadania e demolição de fronteiras.O programa da UPP Social foi transferido para o município em janeiro de 2001. Seu objetivo é promover a integração urbana, social e econômica das áreas da cidade beneficiadas por UPPs. Bastante anunciadas no início do projeto, suas ações agora ocupam menos espaço na mídia tradicional. Muito se falou, por exemplo, do grupo de moradores treinados para criar mapas para algumas comunidades. De acordo com a prefeitura, 57 pessoas das favelas foram capacitados para criar representações que mais se aproximassem da realidade do ambiente onde cresceram.
Na Rocinha, maior favela da América Latina, pacificada em 2011, os moradores se queixam que o governo fez apenas uma "maquiagem" em relação à urbanização, que cursos oferecidos não são devidamente divulgados ou não contam com professores, que obras foram iniciadas e interrompidas no meio do caminho e que apenas a rua principal, a Estrada da Gávea, recebeu investimentos. Nesta rua, a comunidade ganhou uma biblioteca muito bem equipada e moderna, na opinião deles, mas que fica ao lado de um esgoto a céu aberto e que não faz esforços para captar os jovens.Não adianta colocar uma biblioteca e achar que os jovens daqui vão se interessar imediatamente por ela. Era preciso um esforço para atrair as pessoas", comentou a moradora Monique Oliveira. "A Estrada da Gávea é coisa de primeiro mundo comparada ao resto da Rocinha", completou. A rua principal apresenta pavimentação, placas e fiscais de trânsito. Ao entrar nos becos e outras ruas, contudo, a situação continua a mesma de antes da pacificação, diz.Questionada, a UPP Social, por meio da assessoria de imprensa, informa que "graças ao processo de pacificação e transformação da cidade, aos poucos estas regiões estão sendo integradas ao município. A Prefeitura do Rio investe R$ 1,5 bilhão nas áreas pacificadas em projetos de moradia, obra, educação, saúde, lazer e fomento da economia local. Mas temos consciência de que ainda há muito a ser feito. E estamos caminhando a passos largos para conseguir dar às pessoas nestes 34 territórios, onde hoje há UPPs, condições de vida que se aproximem e muito das condições de cariocas de outras áreas da cidade".
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