A banalização do hino nacional
Dizem que Nelson Rodrigues não entendia patavina de futebol.
Há os que vão além e garantem que, por problemas de visão, ele mal enxergava o que se passava dentro de campo.
Custo a crer. De todo modo, muito mais do que por análises técnicas ou táticas, Nelson virou um imortal do jornalismo esportivo devido ao estilo de suas crônicas e às sacadas geniais.
Numa delas, ironizando o interlocutor que se mostrava indignado com as vaias despejadas pelo público do Maraca em cima de uma autoridade, Nelson cravou:
“Isso é bobagem. O Maracanã vaia até minuto de silêncio.”
Entretanto, e como no futebol brasileiro sempre há espaço para piorar o que já não está lá grandes coisas, semana passada anunciou-se que nosso hino passaria a ser executado antes de todos os jogos da série A.
Independentemente de se achar ou não que hinos são dispensáveis – e pra não ficar em cima do muro, declaro logo que eu dispenso –,
Parece claro que futebol e hino não nasceram um para o outro. Tentar juntá-los na mesma programação é forçar a barra.
Digamos que o Corinthians enfrente o Boca Juniors na final, como aconteceu em 2012
. A única explicação para a execução do hino nacional é acreditar que naquela noite, como tentaria empurrar goela abaixo da audiência o incomparável Galvão Bueno,
“o Corinthians é o Brasil na Libertadores”.
Conversa. Metade da cidade de São Paulo estará torcendo fervorosamente para que o Corinthians se estrepe de verde e amarelo.
Hino em jogo da Libertadores é a consagração da hipocrisia.
Obrigar o público de todas as partidas do Campeonato Brasileiro a ouvir os semi-indecifráveis versos de Osório Duque Estrada é, claramente, o que nossos avós chamavam de ideia de jerico.
E não me venham com risíveis patriotadas quando os torcedores – ávidos por ver a bola rolar e revivendo Nelson Rodrigues – responderem a mais essa tolice com uma poderosa e emocionante vaia à capela.
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